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Destinatário: Presidente da Assembleia da República
Petição "Barragem da Aguieira / Barragem da Foz-Do-Dão"
EXCELENTÍSSIMO SENHOR
PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Os cidadãos abaixo assinados, tendo simplesmente presente e em comum um ideal de Justiça e a realização dela, ou a naturalidade, ligação familiar ou conhecimento e amizade relativamente à aldeia chamada Foz-do-Dão, que era da freguesia de Óvoa, do concelho de Santa Comba Dão, nos termos do que se dispõe na Lei nº. 43/90 de 10 de Agosto, com as alterações introduzidas pelas Leis nºs. 6/93 de 01 de Março, 15/2003 de 04 de Junho e 45/2007 de 24 de Agosto, vêm expôr e requerer a Vossa Excelência o seguinte:
1.- O aproveitamento hidroeléctrico dos rios Dão e Mondego determinou que viesse a ser construída uma barragem represadora das águas de ambos os rios, o que veio a acontecer na década de 1970/1980.
2.- Desenvolveram-se então dois projectos que entre si disputaram a construção dessa barragem: um, o então chamado projecto da barragem do Caneiro-Dão, defendia que ela fosse construída a montante da aldeia da Foz-do-Dão, sem submergir portanto esta povoação; o outro, que acabou por ficar conhecido como projecto da barragem da Aguieira (apenas porque terá sido perto desse lugar que terão sido realizadas as primeiras sondagens e onde se terão fixado os primeiros funcionários encarregados das mesmas), propunha que a estrutura represadora das águas fosse construída imediatamente a jusante desta aldeia, submergindo-a totalmente.
3.- Foi este, como se sabe, o projecto que acabou por prevalecer, assim fazendo desaparecer a Foz-do-Dão e eliminando-a da toponímia portuguesa.
4.- Ocorre referir que a Foz-do-Dão era uma pitoresca e bem antiga aldeia, situada entre Penacova e Santa Comba Dão, precisamente no ângulo formado pela margem direita do Mondego e a esquerda do Dão, onde os dois rios confluíam.
5.- Era uma aldeia típica das nossa terras da Beira, bonita de se ver e aprazível de estar, com todo o seu casario alegremente debruçado sobre os rios que tão generosamente constituíam, além da agricultura, importante modo de vida das suas gentes.
6.- Estabelecia também os limites dos concelhos de Santa Comba Dão, Penacova e Mortágua, e era a Foz-do-Dão que dividia os distritos de Coimbra e Viseu, e separava a Beira Litoral da Beira Alta.
7.- Chamou-se em tempos Porto da Foz-do-Dão, quando o rio Mondego, então navegável dali até à foz, era relevante via de comunicação.
8.- Gastronomicamente, muitos se lembrarão da então ali bem apetecida lampreia e do sável.
9.- Foi esta aldeia a única sacrificada a favor da construção da barragem, tendo ficado totalmente submersa nas águas da respectiva albufeira, que assim eliminou aquela terra e sacrificou as suas gentes e a ancestral cultura daquele povo, que de repente se viu pulverizado em pequenos e dispersos núcleos familiares, e acabaram por ir assentar arraiais cada um em seu sítio diferente.
10.- Não se vê que possa estabelecer-se fundada ligação entre a barragem e a povoação - que continua a existir - por cujo nome é conhecida.
11.- Mesmo que entendamos por barragem propriamente dita a estrutura represadora das águas, ainda assim essa estrutura fica bem mais próxima do lugar onde existia a aldeia da Foz-do-Dão do que de outro qualquer, mesmo daquele que se chama Aguieira, no cimo do monte e bem antes dessa estrutura.
12.- Mas, para além disso, barragem é também - e mais comumente - identificada com a própria albufeira que se forma a montante.
13.- E é no fundo dessa albufeira que acabou por ficar, para sempre esquecida, a velha e pitoresca aldeia que se chamava Foz-do-Dão.
14.- É de Justiça por isso, e no mínimo, que a Foz-do-Dão seja lembrada e o seu nome perpetuado, até porque imolou a sua própria vida e a continuidade da sua história, toda a sua cultura e até alguns dos seus filhos à construção daquela barragem.
15.- Por tudo isto, Senhor Presidente da Assembleia da República, não conseguem os cidadãos signatários entender porque é que se lhe há-de chamar, tão sem sentido, da Aguieira, em vez de ser chamada, como justamente deve ser, BARRAGEM DA FOZ-DO-DÃO.
16.- Será a mínima compensação que a submersa e sacrificada aldeia da Foz-do-Dão merece, até por forma a que o seu desaparecimento, ao menos toponímico, não seja total.
Em vista do exposto e do mais que por certo resultará do douto suprimento de Vossa Excelência,
os cidadãos abaixo assinados, requerem a Vossa Excelência se digne diligenciar o que for necessário a fim de que a Barragem hoje conhecida por “Barragem da Aguieira” passe a chamar-se, como de Justiça deve ser, BARRAGEM DA FOZ-DO-DÃO.
(Alcídio Manuel Martins Mateus Ferreira, casado, natural de Foz-do-Dão, freguesia de Óvoa, concelho de Santa Comba Dão, titular do bilhete de identidade nº. 529694, emitido em 18/05/1998 pelos Serviços de Identificação Civil de Coimbra, com domicílio na Avenida Fernão de Magalhães, nº. 458 – 1º.- Esqº. - 3000-173 Coimbra)
Os Peticionários